terça-feira, 9 de março de 2010

Simplesmente Esperança...




Cada um de nós é uma pessoa única, isto é, somos diferentes, diversos em nosso próprio meio, seja este qual for (IMBERNÓN, 2000).


Minha mão toca o teclado do computador e penso: Como anunciar essa trajetória de vida? Por onde começar? Desde o dia que entrevistei Esperança, temia por este momento, uma vez que escrever sobre ela torna-se um tanto quanto “complexo” e ao mesmo tempo “desafiador”. A fala de Esperança aponta toda essa complexidade:


[...] Quando você chega a uma época como eu estou, com 28 anos de serviço, com 44 anos de idade, uma pessoa que se desgastou demais, teve o tempo dedicado à educação e hoje você sofre porque viveu isso uma vida inteira.


Surge-me então outro questionamento: Como narrar essa história? Busco palavras, mas elas me parecem insuficientes. A vida de Esperança não tem sido nada fácil e exige mais do que palavras para tentar narrar essa trajetória.Terei que voltar ao início de tudo, para montar este "quebra-cabeça”, combinando cada pedacinho para que possamos juntos, eu e o leitor, tentarmos compreender cada palavra: “[...] eu já amei a Educação, já me dediquei demais da conta, mas hoje eu faço de conta [...] vou te contar: estou numa fase horrível da minha vida”. Todavia, nem sempre foi assim...

Esperança nasceu em Conselheiro Pena, em Minas Gerais, em uma fazenda conhecida como João Carreiro. Sua trajetória estudantil é marcada por dificuldades, lutas e desafios de estudar em uma escola na zona rural: “[...] a gente ia a cavalo [...] lembro que, na época, a gente levava um litro de leite para lanchar, porque não tinha lanche na escola”.

Ao recordar os primeiros anos escolares, lembra e fala com carinho da professora Alice: “[...] a pessoa que mais eu queria rever era a minha professora na 4ª série [...] essa professora admiro até hoje”. Essa professora desperta em Esperança o desejo de um dia ensinar: “[...] eu a achava muito bonita e pensava: um dia eu vou ser professora”.

Em 1972, a família veio para o Estado do Tocantins (na época, Estado de Goiás) e foi residir em uma fazenda a 22 km de Xambioá, conhecida como Fazenda da Mata. Em seu relato descreve que: “[...] era a época da Guerrilha do Araguaia, não entrava nem saía ninguém. Foi quando chegamos a Xambioá. Quem entrasse não saía, quem saía não entrava”.

As dificuldades de acesso à escola e até pela própria guerrilha, resultou na interrupção dos estudos de Esperança: “[...] eu sempre fui ‘inspirada’ para estudar, mas o papai sempre dizia que era muito difícil deixar as filhas dele saírem [...] não fui estudar, meus irmãos foram e eu fiquei”.

Esperança, na época com 12 anos, não pôde estudar. Ficou trabalhando na fazenda. Entretanto, o desejo de ser professora persiste e começou a alfabetizar os filhos dos vizinhos da fazenda.


[...] Eu trabalhava na roça, cortava a roça de facão, enxada e machado [...] comecei a “puxar um horário” para ensinar os filhos dos vizinhos, era de cinco às sete horas, porque não podia ficar até mais tarde, tinha que levantar no outro dia às quatro horas para fazer a comida levar para a roça e continuar trabalhando [...] eram quinze alunos, eu os alfabetizava.


O prefeito da cidade de Xambioá, ao visitar a fazenda, ficou conhecendo seu trabalho. Ele achou interessante uma menina alfabetizando e resolveu construir uma pequena escola. Assim, nasceu a Escola Machado de Assis. Esperança fala sobre o ambiente improvisado em que desenvolvia suas atividades:

[...] Antes de construir a escola tudo era improvisado, eles colocavam aquelas forquilhas, cortavam pés de açaí e faziam os banquinhos [...] faziam pranchas de raiz de árvore e mesinhas [...] eu ensinava assim: seis aqui, três ali... Eram dois bancos com doze lugares. O quadro era a raiz de uma árvore chamada gameleira, que dá uma raiz bem grande, bem larga e a gente escrevia com carvão. Aí jogava água, secava com um pano, esperava o sol secar o resto e escrevia novamente.


Esperança continuou trabalhando na roça e ensinando as crianças, mas acabou ficando muito doente: “[...] eu fui para a roça, capinei o dia todo, deu uma supuração de apendicite. Fui para o médico, quase morro”. Ao afastar-se da escola surge a oportunidade de voltar a estudar, quando uma professora que Esperança chama de “Dona Lu”, convida-a para trabalhar em sua casa na cidade de Xambioá como doméstica. De acordo com seu relato: “[...] fui para a casa dela, trabalhando de dia e dormindo à noite. Não podia sair nem para ir à igreja. Se fosse era com ela, esposo e filhos. Fiquei lá uns três anos”.

Estudou a 5ª, 6ª, 7ª e 8ª séries do EF em Xambioá, quando estava na 6ª série, Dona Lu oferece-lhe um emprego, com duas opções: poderia trabalhar na Rede Pública Estadual ou com seu esposo em um escritório de Contabilidade. Esperança manifestou o desejo de trabalhar no escritório, mas Dona Lu, mesmo mostrando duas opções de escolha, dizia que trabalhar na escola seria melhor: “[...] fui ser secretária de uma escola. Só que toda a vida eu tinha vontade de ensinar, não era de trabalhar assim”. Porém, Dona Lu ponderava que ela não tinha condições de ir para a sala de aula.

Entretanto, parece que seu destino era mesmo ser professora: “[...] Deus é tão bom e justo que meu contrato de trabalho sai como professora”. Mesmo assim, trabalhou por dois anos na secretaria da escola. Como o seu contrato de trabalho não era administrativo, as pessoas começaram a incentivá-la a ser professora. Naquele momento, sentiu que seu desejo poderia se concretizar, todavia, vivia cercada de dúvidas e de receios:


[...] Eu tinha vontade de ter uma sala, com alunos só de uma série [...] a escola na fazenda, era muito variada, era 1ª, 2ª, 3ª e 4ª séries [classe multiserriada]. A 4ª série, meu Deus! Eu tinha muito medo, porque eu não sabia, eu tinha feito somente a 5ª série, como eu ia ensinar?


Assim, em 1977, ensina pela primeira vez em uma escola pública: “[...] fui trabalhar com alfabetização, daquele jeito como fui alfabetizada: não sabe o A, fica de castigo e apanha, para aprender, bem tradicional”. Apesar de descrever sua prática docente dessa forma, afirma que: “[...] naquela época eu fui uma boa alfabetizadora”.

Ao terminar a 8ª série, casa-se e vai morar em um povoado conhecido como Mosquito, localizado ao norte do Estado do Tocantins, hoje, Palmeiras do Tocantins: “[...] fiquei lá 14 anos [...] trabalhei dois anos na secretaria porque tinha experiência, contra a minha vontade e os outros anos trabalhei na sala de aula”.

Nessa época, consegue dar continuidade aos seus estudos fazendo um curso de nível médio, Magistério, em um Centro de Formação de Professores localizado na cidade de Tocantinópolis[1]. Apesar de já ter uma filha de onze meses, vai viver nessa cidade: “[...] lá a gente era interna, de 15 em 15 dias você tinha o direito de ir ver a família”. Assim, ficou como interna no Centro de Formação de 1983 e 1984. Em 1985, retorna à cidade de Palmeiras para concluir o estágio em uma escola.

Esperança, ao regressar para a cidade de Palmeiras começa a lecionar Matemática na Rede Pública Estadual e assume também a direção de um Colégio, da Rede Pública Municipal, sendo uma das fundadoras da escola.

Em 1993, devido a problemas familiares, vai residir em Araguaína, onde começa a trabalhar na Escola AL. Nessa escola, fica exercendo o cargo de professora de Matemática de 1993 a 1997. Em 1998, faz seleção para o vestibular em Licenciatura em Matemática, oferecido pela UNITINS, no Campus de Miracema: “[...] eu ia daqui pra Miracema, porque a gente estudava mês sim, mês não. Fui em junho, passei o mês todo para lá. Em agosto eu não fui, em setembro eu fui; em outubro eu não fui, em novembro também não”. Conseqüentemente, acaba sendo transferida da sala de aula para a secretaria da escola: “[...] eu só fui para a secretaria da escola, porque passei no vestibular [...] aqueles que julgavam a Escola AL prioritária no Tocantins e modelo em Araguaína, não deixaram eu ficar na sala de aula”.

Em 2000, devido às dificuldades de freqüentar a universidade em outra cidade, opta por morar na cidade de Miracema. Nesse contexto, começa a trabalhar na escola EB como professora de Matemática.

O curso de Licenciatura em Matemática era ofertado em regime especial, os alunos tinham entre 30 e 55 anos de idade e a maioria apenas com formação em nível médio de Magistério. Com relação ao curso, esclarece em seu depoimento que: “[...] foi uma coisa muito puxada [...] nos deparamos com a Matemática e não teve muita ‘cobertura’ dos professores [...] nos preparamos para uma coisa e era completamente diferente”. Como as dificuldades dos alunos eram muitas, conseguiram, através de um ofício, destinado à coordenação, um curso de capacitação em Matemática. Seu depoimento explicita que: “[...] quem faz Magistério não vê Matemática e ela é a base. Então você é obrigada a saber”.

Apesar das dificuldades de freqüentar um curso oferecido de forma especial, essa formação foi considerada importante, uma vez que oportunizou um maior embasamento científico. Seu trabalho de conclusão de curso foi uma pesquisa feita em oito cidades do Tocantins, onde foi constatado que os professores não possuem formação específica para lecionar a disciplina Geometria Espacial: “[...] tanto para a Geometria Plana e Espacial, não tem professor preparado. Eles ensinam porque eles estudam sozinhos”. Em meio a tantas dificuldades, conclui o Curso de Licenciatura em Matemática em 2003.

Em 2004, consegue ser transferida para a cidade de Araguaína e ao retornar vai trabalhar na Escola M, da Rede Pública.

Atualmente, passa o período de férias escolares na cidade de Redenção, no Estado do Pará, onde leciona nos cursos de Pedagogia, Normal Superior e Licenciatura em Matemática. Os cursos também são ofertados em regime especial, promovido pela Universidade Estadual do Pará (UEPA), onde leciona disciplinas como: Matemática Básica e Metodologia do Ensino de Matemática. Em Redenção, aos finais de semana, leciona no curso Pró-formação: “[...] eu leciono Didática da Matemática e Psicologia e a Didática Prática”.

Esperança cresceu ensinando para outras crianças o que aprendeu. No entanto, apesar de toda essa trajetória de vida dedicada à educação, percebi em seus relatos uma grande decepção com relação à educação. Em seu depoimento:


[...] Na época que eu tinha a 4ª série eu era a professora Esperança. Hoje eu sou uma professorinha de Matemática, uma professorinha que desmaia dentro da sala de aula [...] uma pessoa que tem depressão [...] que não ganha bem [...] que tem 45 alunos dentro de uma sala, que grita, te humilha, te xinga e você não tem o direito de dizer nada [...] sou uma professora, não fui educada para isso [...] meus pais, quando me educaram, não foi para que não respondesse a ninguém [...] Que não fosse uma pessoa agressiva, intolerante, mas que dentro de seus direitos, você fosse alguém. Porque hoje eu não sou ninguém.


Esperança sempre enfrentou dificuldades na profissão, afinal ainda é remunerada como professora com nível de magistério. Hoje, aguarda o próximo concurso para tentar ser remunerada com formação em nível superior. No entanto, ao refletir sobre o seu depoimento percebi que o contexto onde trabalha tem favorecido para ela se encontrar tão desestimulada: “[...] se eu pudesse estaria na Escola EB [...] Amo a cidade de Miracema, porque foi onde eu aprendi tudo”. Entretanto, com relação ao contexto atual explicita:


[...] Eu já trabalhei em várias escolas. O conselho de classe era para dizer: “O problema do seu filho é esse”. “O problema do aluno é aquele”. Recentemente, em um conselho de classe, eu tive que dar sete para a aluna passar, sendo que ela nunca freqüentou minha sala de aula [...] a coordenadora disse: “chega na tua casa respira, respira, respira, e está tudo bem. Sai daqui e vai curtir tuas férias”. Eu disse: “Não! Quando eu passar por essa porta eu vou lembrar que passei uma aluna sem ela ter competência”.


Em sua prática docente sempre avaliou seus alunos com responsabilidade e era uma professora que: “[...] não dá chance, mas também não tirava de ninguém”. Hoje, argumenta que sente que seus alunos a olham e dizem: “[...] ela é obrigada a me passar!”.




[1] Essa cidade situa-se no extremo norte do Estado do Tocantins, faz divisa com a cidade de Porto Franco-Maranhão, é banhada pelo imenso e belo Rio Tocantins, a região é denominada de Bico do Papagaio - confluência dos Rios Tocantins e Araguaia.


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